61 socos: O que a Psicologia Histórico-Cultural tem a dizer?
Sessenta e um socos
Foi essa a violência que a até então namorada de Igor Eduardo Pereira Cabral, 29 anos, sofreu dentro de um elevador em Natal (RN). O ex-jogador de basquete foi denunciado por tentativa de feminicídio.
O relacionamento, que durou cerca de dois anos, tinha histórico de idas e vindas, marcado por agressões físicas e psicológicas. A vítima precisou passar por uma cirurgia de reconstrução facial de mais de sete horas. O motivo apontado pela polícia?
Ciúmes!!!
E o registro policial revelou: não foi a primeira vez
Não é doença nem “surto”, é construção social
Sempre que um caso como esse vem à tona, surgem as justificativas:
“É só um menino…”
“Deve ter algum transtorno…”
Essas frases não são inocentes, pois mascaram a verdadeira raiz do problema. Machismo e misoginia não são doenças. São construção social.
São valores e práticas que, há séculos, ensinam que controlar, humilhar e agredir mulheres é aceitável. Uma cultura que naturaliza a violência como expressão de masculinidade.
A lente da Psicologia Histórico-Cultural
Aqui, a Psicologia Histórico-Cultural (PHC) é fundamental para entender o fenômeno da violência contra mulheres. Nosso desenvolvimento não nasce pronto, ele é construído nas relações sociais. Antes de serem funções psicológicas ou qualquer outro elemento intrapsíquico, nosso desenvolvimento mental foram interações concretas com outras pessoas.
Isso nos torna parte da realidade concreta e material, como nos ensinou Karl Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos: o que somos é atravessado pela forma como a sociedade se organiza e pela cultura que herdamos.
E a sociedade que nos constitui é estruturalmente desigual e binária, feita para proteger a branquitude e os homens cisgêneros, marginalizando todos os outros grupos. Desde cedo, aprendemos por meio de exemplos, palavras, imagens e histórias quais comportamentos “pertencem” a homens, mulheres, pessoas negras, pessoas brancas.
O homem branco, por exemplo, é incentivado a associar violência à virilidade. Essa lógica, somada à objetificação dos corpos femininos e à hierarquia de poder nos relacionamentos cria o cenário perfeito para que casos como esse se repitam.
Violência não é exceção, é padrão
Não estamos diante de um caso isolado, de um ato repentino ou de um diagnóstico psiquiátrico. Estamos diante de um padrão socialmente reproduzido.
Podemos até recorrer ao conceito de generalização desenvolvido por Vigotski em seu livro A construção do Pensamento e da Linguagem: há comportamentos e formas de funcionamento mental que se estabelecem como padrão, como a violência contra a mulher, a qual é fomentada pelo machismo, pela misoginia e pelo patriarcado. Elas moldam não apenas comportamentos, mas também funções psicológicas como pensamento, linguagem, percepção, imaginação e emoções.
E ainda assim…
O fato de sermos constituídos pelo social não significa que absorvemos tudo de forma passiva. O psiquismo é uma síntese única e particular que cada pessoa constrói da realidade objetiva.
O desafio é justamente romper com os elementos violentos que essa realidade carrega, e isso exige consciência e ação coletiva.
Essa é a história por trás dos 61 socos. Não um surto nem um acidente, mas o resultado previsível de uma sociedade que forma homens para serem violentos e que naturaliza tais condutas e comportamentos.
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O Instituto Veresk é um coletivo de psicólogos histórico-culturais apaixonados pela teoria de Vigotski na clínica, composto por Neto Oliveira (Diretor Geral), Brenna Santos (Coordenadora Pedagógica) e Mylene Freitas (Coordenadora de Marketing). Contamos ainda com a referência e consultoria da Prof. Dra. Ana Ignez Belém Lima, precursora da Psicologia Clínica Histórico-Cultural no Brasil.
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