Características do terapeuta histórico-cultural, escuta e contexto.
Quando falamos sobre quem é o terapeuta histórico-cultural, tratamos de uma postura no mundo. A Psicologia Histórico-Cultural parte da compreensão de que o ser humano se constitui e se determina na relação com o outro, com a cultura, com a linguagem e com a história. E é a partir dessa perspectiva que o terapeuta também se reconhece como indivíduo, alguém que carrega marcas, escolhas, contextos e contradições.
Características do terapeuta histórico-cultural:
O terapeuta histórico-cultural entende que ninguém nasce pronto. Somos permanentemente atravessados por experiências, por vínculos e por estruturas sociais que constituem e moldam nosso modo de existir. O sofrimento, assim como a possibilidade de transformação, nunca é isolado — ele sempre acontece em relação.
1) Um sujeito que se implica
Diferente de outras correntes que propõem uma neutralidade do terapeuta, na Clínica Histórico-Cultural, compreendemos que ser psicoterapeuta significa estar implicado e intencionado na caminhada terapêutica.
O terapeuta se reconhece como parte da cultura e da história que atravessam o outro. Isso não quer dizer que ele impõe suas verdades, mas que ele se responsabiliza pelas relações que constrói e pelas escolhas que faz no processo terapêutico.
Essa é uma clínica que pede presença. Escutar com atenção, propor com intenção, refletir com cuidado. É uma prática que exige afeto, mas também crítica. Sensibilidade, mas também posicionamento.
2) Uma escuta que aposta no desenvolvimento
A escuta do terapeuta histórico-cultural não está voltada apenas para “entender o problema”, mas se aprofundar na história do comportamento para identificar possibilidades de movimento. Assim, como psicólogos clínicos histórico-culturais, perguntas que constantemente nos fazemos são:
O que te trouxe até aqui? Qual a sua história?
O que, em sua história, ainda precisa ser elaborado?
Como suas dores se desenvolveram?
Como podemos construir novas formas de se relacionar com essa dor?
Cada intervenção é pensada com intencionalidade. O terapeuta oferece recursos simbólicos, interpretações, imagens, palavras — tudo isso com o objetivo de favorecer o desenvolvimento, ampliar sentidos e fortalecer o sujeito em sua capacidade de se narrar de forma diferente e de aprender novos caminhos saudáveis.
3) Um profissional que também se transforma
Na clínica histórico-cultural, não há um sujeito “analisado” e um sujeito “intacto”. O terapeuta também se transforma. Cada encontro é um atravessamento. Cada palavra do paciente reverbera. Cada silêncio convida a olhar para dentro. Isso faz com que o terapeuta esteja em constante processo de reelaboração, repensando seus próprios sentidos, revisitando sua escuta, reconstruindo sua forma de estar na relação.
Essa reciprocidade não diminui a ética da função clínica — pelo contrário, a torna ainda mais potente, porque a escuta deixa de ser técnica e se torna afetada e implicada.
4) Um terapeuta que compreende o sofrimento em sua dimensão social
A PHC reconhece que o sofrimento psíquico não nasce apenas da história individual, mas das condições sociais, políticas e culturais que atravessam essa história. O terapeuta histórico-cultural, portanto, compreende que sua prática também é política — no sentido de que ela se posiciona ao lado da vida, da justiça, e da promoção da dignidade.
É por isso que esse profissional não compactua com formas de opressão naturalizadas e se compromete com uma clínica anticapacitista, antirracista, antipatriarcal e antidiscriminatória. Ele entende que esses sistemas sustentam modos de vida adoecidos, e que o cuidado psicológico não pode estar à parte disso.
Em resumo…
As características de um terapeuta histórico-cultural não se resumem a técnicas. Envolvem postura, ética, afeto e compromisso. Envolvem estar inteiro com o outro, sustentar uma escuta implicada e construir a cada encontro caminhos possíveis para que o sofrimento ceda espaço para a saúde mental!
Se essa forma de compreender o cuidado ressoa com você, talvez seja um bom momento para conhecer mais sobre essa abordagem, que é a Psicologia clínica Histórico-Cultural.
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O Instituto Veresk é um coletivo de psicólogos histórico-culturais apaixonados pela teoria de Vigotski na clínica, composto por Neto Oliveira (Diretor Geral), Brenna Santos (Coordenadora Pedagógica) e Mylene Freitas (Coordenadora de Marketing). Contamos ainda com a referência e consultoria da Prof. Dra. Ana Ignez Belém Lima, precursora da Psicologia Clínica Histórico-Cultural no Brasil.
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