Demandas étnico-raciais: Como a Psicologia Histórico-Cultural as compreende na clínica?

Falar de demandas étnico-raciais e de racismo é falar de um processo que atravessa a vida de milhões de pessoas no Brasil, produzindo marcas que vão muito além do social: chegam ao corpo, às relações e à saúde mental. 

A vivência cotidiana do racismo não é apenas um episódio isolado de discriminação, mas um sistema que regula o acesso a direitos, oportunidades e até a forma como cada pessoa constrói sua autoimagem e seus vínculos.

Na clínica psicológica de base histórico-cultural, esse atravessamento se torna evidente. Quem vive o racismo muitas vezes chega ao consultório carregando dores que não se resumem a conflitos individuais, mas que revelam uma história social marcada pela exclusão. A Psicologia Histórico-Cultural (PHC), com sua base nas ideias de Vigotski, oferece um olhar potente para compreender e intervir no sofrimento mental causado pelo racismo.

Racismo e desenvolvimento psíquico

O racismo não é apenas uma realidade social, ele tem impactos diretos no desenvolvimento psíquico das pessoas. Estudos mostram que adolescentes negros, por exemplo, quando comparados a adolescentes brancos, enfrentam maior exposição à violência policial e a situações de discriminação que afetam autoestima, criatividade, imaginação e até a forma como constroem conceitos sobre si mesmos e o mundo

Para a PHC, o desenvolvimento humano acontece sempre em relação com a cultura. Isso significa que crescer em um contexto marcado pelo racismo altera a forma como emoções e pensamentos se organizam, podendo gerar rupturas naquilo que Vigotski chamava de unidade cognição-afeto. Assim, o racismo não atinge apenas o que pensamos, mas também como sentimos e como nos sentimos!

A clínica histórico-cultural diante das demandas étnico-raciais

É nesse ponto que a clínica precisa se posicionar. O espaço terapêutico não pode ser neutro diante do racismo. Mais do que acolher a dor, é necessário mediar experiências de afirmação da identidade negra, criar referenciais positivos e fortalecer estratégias de enfrentamento diante das situações de exclusão.

No caso dos adolescentes, isso pode significar trabalhar a autoimagem, os conceitos de dignidade e pertencimento, bem como abrir espaço para narrativas afrocentradas, que reconectem o paciente às suas ancestralidade e cultura. A PHC, comprometida desde sua origem com a transformação social, encontra aqui um campo de atuação fundamental: ajudar a desconstruir as marcas do racismo internalizado e apoiar a construção de novas formas de relação consigo e com o mundo.

O desafio na formação dos psicólogos clínicos histórico-culturais

Entretanto, não podemos ignorar uma questão delicada: a psicologia, inclusive a histórico-cultural, ainda é um campo predominantemente branco e, muitas vezes, despreparado para lidar com o racismo de maneira efetiva.

Isso significa que parte dos profissionais corre o risco de reproduzir, dentro da clínica, as mesmas lógicas de exclusão que dizem combater!

Por isso, torna-se urgente investir na formação crítica de psicólogas e psicólogo histórico-culturais, ampliando o debate sobre relações raciais e suas implicações no desenvolvimento mental humano. 

A clínica histórico-cultural só pode cumprir seu papel transformador se estiver aberta a reconhecer o racismo como determinante social e psíquico e se comprometer com práticas que promovam saúde e equidade.

Resumindo pra você

Para a PHC, o racismo não é apenas um tema externo à clínica, mas uma das bases psicossociais do desenvolvimento psíquico no Brasil. Reconhecer e enfrentar suas consequências na prática clínica é parte essencial da tarefa de construir caminhos mais saudáveis e justos para a população negra, especialmente para adolescentes que ainda estão em processo de formação de sua identidade e personalidade.

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Se quiser se aprofundar sobre o tema, deixamos a dica de dois artigos que tratam sobre este tema em conexão com a clínica:

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O Instituto Veresk é um coletivo de psicólogos histórico-culturais apaixonados pela teoria de Vigotski na clínica, composto por Neto Oliveira (Diretor Geral), Brenna Santos (Coordenadora Pedagógica) e Mylene Freitas (Coordenadora de Marketing). Contamos ainda com a referência e consultoria da Prof. Dra. Ana Ignez Belém Lima, precursora da Psicologia Clínica Histórico-Cultural no Brasil.

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