Entenda mais sobre o desenvolvimento dessa função psicológica superior
As razões que levam alguém a buscar um espaço terapêutico são múltiplas e, por vezes, difíceis até de nomear. Mas há algo que une todas essas buscas: um desejo, nem sempre consciente, de transformar o modo de existir. Trata-se de encontrar outras formas de estar no mundo, de redesenhar o que parecia fixo, de explorar saídas onde antes só havia muros.
Esse movimento não acontece sem que algo seja criado. Criar, aqui, não é pintar um quadro ou compor uma canção, embora também possa ser. Criar é dar forma nova a experiências antigas; é reconfigurar afetos, narrativas e modos de se posicionar diante da vida. E é exatamente nesse ponto que a Clínica Histórico-Cultural se revela: como um terreno fértil para a invenção de si e da própria realidade.
Imaginação, um motor do humano
A criatividade não é um dom reservado a artistas. Ela é uma força vital, uma habilidade constitutiva da existência humana. Só conseguimos criar porque somos capazes de imaginar. E só conseguimos imaginar porque, desde cedo, mergulhamos na linguagem, nas histórias, nos símbolos e nas práticas culturais que ampliam nosso repertório interno.
Mas não se trata de imaginar por imaginar. A imaginação, quando conectada às contradições da vida real — como a dor, a falta, a frustração —, pode se tornar potência de reinvenção. L. S. Vigotski, ao analisar o papel da imaginação na infância, apontava que é da tensão entre o que é e o que poderia ser que nasce a possibilidade de criação. Criamos porque algo não está bom, porque sentimos falta, porque desejamos mais.
Assim, toda criação humana parte, em algum grau, de uma insuficiência. O sujeito sofre, sente-se deslocado, e é nesse desconforto que começa a experimentar formas de recompor sua experiência.
A clínica como lugar de representação simbólica
Na prática clínica orientada pela psicologia histórico-cultural, o sofrimento não é visto como falha individual ou sintoma isolado, mas como expressão de uma relação entre o sujeito e sua história concreta, social e simbólica.
Muitas vezes, quem chega à clínica carrega uma sensação de paralisia: “nada faz sentido”, “não vejo saída”, “não sou capaz”. Esse tipo de enredo interno bloqueia não só a ação,
mas também a capacidade de imaginar alternativas. Nesse ponto, o processo terapêutico se propõe a abrir fissuras nessa rigidez.
A escuta sensível, o diálogo mediado e o trabalho conjunto entre terapeuta e paciente vão criando condições para que novas possibilidades simbólicas surjam. O que antes parecia intransponível começa a se deslocar, ganhar contornos diferentes. Aquilo que era apenas dor pode se tornar aprendizado; o que era silêncio pode virar palavra.
Essa transformação é, antes de tudo, simbólica — mas nem por isso menos real. Mudar o significado de uma experiência é, muitas vezes, o primeiro passo para mudar a forma de agir diante dela. Ainda que as condições materiais permaneçam as mesmas, o modo como a pessoa se posiciona frente a elas pode se alterar radicalmente.
Finalizando: recriar-se é possível
A Clínica Histórico-Cultural não oferece soluções mágicas. Ela não promete resolver os impasses da sociedade, nem remover os obstáculos externos da vida de ninguém. Mas ela pode oferecer algo igualmente poderoso: a possibilidade de ressignificar, de reconstruir sentidos e, assim, abrir caminhos que antes pareciam bloqueados.
É no entrelaçamento entre imaginação e criação que o sujeito começa a se reconhecer como agente — não apenas da sua história passada, mas da história que está por vir. E esse é um passo essencial para qualquer processo de transformação real.
Quer se aprofunda nesse tema? Dá uma olhada nas nossas recomendação abaixo:
- Imaginação: textos escolhidos – Vigotski
- Psicologia da Arte – Vigotski
—-
O Instituto Veresk é um coletivo de psicólogos histórico-culturais apaixonados pela teoria de Vigotski na clínica, composto por Neto Oliveira (Diretor Geral), Brenna Santos (Coordenadora Pedagógica) e Mylene Freitas (Coordenadora de Marketing). Contamos ainda com a referência e consultoria da Prof. Dra. Ana Ignez Belém Lima, precursora da Psicologia Clínica Histórico-Cultural no Brasil.
Para mais informações, confira a página “Sobre Nós” no menu de navegação.
Siga-nos no instagram para ficar dentro de conteúdos audiovisuais, posts e informações sobre cursos.