Vamos compreender juntos à luz da teoria histórico-cultural qual o termo mais apropriado para a clínica histórico-cultural
Na prática clínica histórico-cultural, não é raro nos depararmos com a pergunta “como devemos nos referir àquele que está em sofrimento psíquico e busca ajuda?” Afinal, para além de uma mera questão de terminologia, essa pergunta revela uma necessidade de reflexão que está relacionada com os fundamentos da Psicologia clínica Histórico-Cultural e sua epistemologia
Chamamos de paciente? Preferimos sujeito? Ou adotamos o termo pessoa?
À primeira vista, pode parecer apenas uma questão de vocabulário. Mas, quando olhamos mais de perto, percebemos que as palavras que escolhemos dizem muito sobre como compreendemos o outro, sobre o lugar que ocupamos na relação terapêutica e sobre a visão de mundo que temos.
Paciente, sujeito e pessoa são termos que costumamos ouvir dentro do processo terapêutico histórico-cultural para nos referirmos ao indivíduo que está conosco na relação terapêutica, que, na PHC, é dialética e dialógica. Cada um desses termos, olhando para a ciência psicológica, tem uma história e não podem ser empregados acriticamente.
O sujeito: faz sentido para a PHC?
O termo sujeito pode parecer mais alinhado com a ideia de que somos constituídos nas relações. Entretanto, na história da clínica, essa palavra ganhou força a partir da psicanálise, especialmente nas elaborações de Jacques Lacan. Para ele, o sujeito não é dono de si mesmo, é o sujeito do inconsciente, marcado pelo que desconhece de si, pelo desejo que o move e pelas faltas que o constituem.
Na escuta psicanalítica, o sujeito é sempre dividido, incompleto, e se forma na linguagem, nas redes de significantes que circulam antes mesmo do nascimento.
Ser sujeito, aqui, é estar implicado em um enigma, em uma busca que nunca se encerra. A clínica, nesse caso, não se propõe a “ajustar” o sujeito, mas a permitir que ele se reconheça em seu desejo e se responsabilize por sua história.
Um ponto importante é que, se existe sujeito dividido, existe um objeto dividido também, e isto porque a história do termo sujeito está marcada pelo cartesianismo, assim nós entendemos que este termo e seus derivados, como subjetividade, não fazem muito sentido de serem usados na Psicologia clínica Histórico-Cultural.
E a pessoa? É um termo mais apropriado?
A palavra pessoa nos aproxima da ética, da ideia de dignidade e da singularidade de cada um. Ela nos lembra que, além de um diagnóstico ou de um sintoma, há alguém com uma história, afetos, vínculos e desejos.
Usar esse termo pode ser uma escolha importante quando queremos reforçar o caráter humano e integral do cuidado, especialmente em contextos intersetoriais, de saúde coletiva ou de defesa de direitos.
Todavia, não podemos deixar de notar que há uma tradição humanista e fenomenológica de uso do termo pessoa e que, se tem essas bases, está conectada com o neoliberalismo, afinal as clínicas humanistas trabalham com um indivíduo abstrato e que, independente do contexto social, histórico e cultural, tem uma tendência ao crescimento positivo.
O paciente: passividade ou reconhecimento?
O termo paciente carrega consigo a ideia de alguém que padece, que sofre. Em muitos contextos, ele é usado automaticamente, afinal, é o termo tradicional nas instituições de saúde, como os hospitais. Nesses contextos, paciente costuma sugerir passividade, ou seja, parece que estamos nos referindo a alguém que está inerte e apenas esperando pelo cuidar do outro, e, desde já, precisamos te dizer que essa visão não tem nada a ver com a Psicologia Histórico-Cultural.
Mas será mesmo que precisa ser assim?
Na perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural, o paciente não é visto como alguém passivo, mas como um sujeito ativo, histórico e em processo. Alguém que, mesmo atravessado pelo sofrimento, é capaz de se transformar e transformar o mundo — com apoio, mediação e vínculo.
Essa construção, que é a forma que o Instituto Veresk adota, está amparada na etimologia da palavra paciente. Do grego pathos, paciente pode se referir a alguém que está aberto para ser afeto e para afetar nas relações que desempenha e, se você já se inteirou do fato de que a PHC é influenciada pela Filosofia dos Afetos de Espinosa, você vai concordar com a gente que esta se torna uma excelente alternativa.
O que está em jogo?
A escolha das palavras na clínica não é neutra. Ela revela nossa posição como profissionais e também contribui para construir — ou não — um espaço de cuidado mais humano, crítico e comprometido com a transformação.
Na nossa prática, utilizamos o termo paciente, mas não no sentido de quem apenas “espera por algo”. Usamos esse termo com consciência: reconhecendo o sofrimento, sim — mas também a potência de transformação que existe em cada um, quando encontra espaço, escuta e presença.
Mas veja bem, não existe um acordo com relação a como devemos nos referir aos indivíduos que estão conosco na clínica histórico-cultural, e as opções terminológicas vêm de histórias e lugares políticos diferentes
Então, perguntamos: E você? Como se refere àquele que acompanha em sua prática?
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O Instituto Veresk é um coletivo de psicólogos histórico-culturais apaixonados pela teoria de Vigotski na clínica, composto por Neto Oliveira (Diretor Geral), Brenna Santos (Coordenadora Pedagógica) e Mylene Freitas (Coordenadora de Marketing). Contamos ainda com a referência e consultoria da Prof. Dra. Ana Ignez Belém Lima, precursora da Psicologia Clínica Histórico-Cultural no Brasil.
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