Muitos estudantes e profissionais da Psicologia acabam, por vezes, utilizando esses dois termos como sinônimos. Entretanto, basta examinarmos muito rapidamente a literatura científica para perceber que, por razões históricas, epistemológicas e conceituais, são teorias diferentes, com usos e implicações específicas.
Vamos entender melhor?
Embora, em linhas gerais, as duas perspectivas compartilhem a mesma raiz epistemológica – o Materialismo Histórico-Dialético – a PHC e a PSH não são a mesma teoria, uma vez que elas representam momentos históricos e objetivos científicos diferentes.
É importante você entender que apontar suas diferenças não tem a ver com a minimização de uma dessas teorias em detrimento da outra, mas com o compromisso de fazermos ciência de forma séria, respeitando a história, os conceitos e os propósitos de cada uma das teorias.
Confira logo a seguir 3 diferenças entre PHC e PSH:
- – Origem e contexto histórico
A Psicologia Histórico-Cultural surgiu na União Soviética no início do século XX, pós-revolução de 191, na pessoa de L. S. Vigotski. Seu objetivo principal era criar uma “nova psicologia”, que superasse a crise que assolava essa área de estudo, unindo o biológico e o social para explicar a gênese das funções psicológicas superiores. Vigotski criou um sistema psicológico, uma forma de compreender o psiquismo, não se resumindo a um único campo de conhecimento e prática da psicologia. Outros nomes importantes da PHC são Luria, Leontiev, Zeigarnik, Rubinstein, dentre outros.
Enquanto isso, a Psicologia Sócio-Histórica é fruto de um movimento especificamente brasileiro na área da Psicologia Social, consolidado na década de 1980 pela Escola de São Paulo, e contou com nomes como Silvia Lane, Antônio Ciampa e Wanderley Codo. Essa perspectiva surgiu em meio ao período de redemocratização do Brasil e à crise da psicologia social na América Latina, a qual era vista como elitista, descontextualizada e focada em modelos norte-americanos e europeus, que não falavam dos nossos problemas locais.
- – O foco de cada uma das teorias
Na Psicologia Histórico-Cultural, investigamos como a cultura e os signos medeiam o desenvolvimento do pensamento, da linguagem e da consciência. A pergunta que orienta essa abordagem é: Como o social se torna psíquico? É sempre importante que você lembre que a Psicologia Histórico-Cultural é um sistema psicológico, com uma concepção própria de desenvolvimento, adoecimento psíquico, intervenção, dentre outros, o que faz com que seja aplicável a qualquer área do saber psi.
Na Psicologia Sócio-Histórica, utiliza-se a base de Vigotski e de outros autores (não necessariamente marxistas) para questionar as desigualdades sociais, as opressões e o papel do psicólogo na sociedade. A pergunta central aqui é: Como a psicologia pode servir à transformação da realidade social e à superação da desigualdade? Diferentemente da PHC, a PSH é uma tradição que nasce articulada à Psicologia Social. Apesar disso, é importante lembrar que, atualmente no Brasil, há grupos que a têm expandido para outros campos.
- – O aspecto clínico
Vigotski, além de um crítico literário, psicólogo do desenvolvimento e pesquisador, era também um psicólogo clínico, relacionando, desde muito cedo, sua teoria com problemas ligados ao campo da saúde mental, o que só foi possível por sua teoria não nascer amarrada a um campo específico da psicologia, como a psicologia social ou a psicologia da educação. Nosso querido psicólogo soviético autou e trabalhou com vários problemas clínicos, dentre eles: a esquizofrenia, as neuroses infantis, problemas de comportamento e até mesmo a psicoterapia, como podemos observar nos seus recentemente publicados Cadernos Clínicos.
Por um outro lado, a Psicologia Sócio-Histórica, apesar de avanços recentes para outros campos, ainda é um campo do conhecimento amarrado a categoria que foram pensadas para se pensar problemas psicossociais, como a pobreza, a violência, a intolerância etc., isto é, fenômenos mais amplos do que aqueles que a Psicologia Histórico-Cultural nos permite analisar, uma vez que a PHC, além de ser uma teoria do social, faz a conexão indivíduo e cultura. Não se tratando de um sistema psicológico, não apresenta uma noção própria de desenvolvimento, psicopatologia, intervenção, bebendo de outros autores, incluindo Vigotski, para pensar seus objetos.
Resumindo para você…
Para estudar PHC e PSH, você precisa estar consciente e certo de que são teorias diferentes, gestadas em tempos históricos diversos e, assim, com propósitos sócio-políticos diferentes.
Apesar disso, é importante que você assuma que, guardadas as diferenças, elas se tratam de teorias mais próximas do que distantes, afinal das contas PHC e PSH bebem do materialismo histórico-dialético.
Diferenciar não tem a ver com minimizar, hein? Mas sim com reconhecer limites, potencialidades e lacunas, os quais nos ajudam a avançar na produção de conhecimento.
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