Há um grande debate sobre o uso dos termos “Psicologia Soviética” e “Psicologia Histórico-Cultural” como sinônimos, mas será que são?
Embora muitos profissionais e interessados na área os utilizem com o mesmo sentido no dia a dia, a literatura científica revela que eles representam teorias diferentes, com conceitos, métodos e histórias próprias.
Vamos entender melhor as particularidades de cada uma? E, para começar, qual o contexto do surgimento delas?
No contexto da Revolução Russa…
Muitas foram as mudanças que ocorreram na União Soviética, configurando uma nova concepção de homem e de sociedade. As transformações atingiram não apenas as dimensões políticas e econômicas do país, como também influenciaram novas concepções no âmbito da ciência, sobretudo nas áreas da psicologia e da educação. Era uma nova sociedade que estava se organizando!
Isso foi feito por meio da estruturação dessa nova sociedade a partir do marxismo, o que despertou um novo olhar para os estudiosos da época sobre a necessidade de se fazer uma ciência a partir da realidade social. Assim, a Psicologia Soviética surge, enquanto um movimento científico formado por psicólogos soviéticos que utilizaram a perspectiva marxista como alicerce para sua fundamentação teórica.
Entre esses psicólogos soviéticos, encontra-se o nosso querido L. S. Vigotski, que propôs a construção de uma psicologia marxista. Em conjunto com psicólogos como Leontiev e Luria, delineou uma nova concepção de homem, como sujeito social e histórico, culminando na teoria que mais tarde chamou de Psicologia Histórico-Cultural
Certo, entendemos como cada uma surgiu, mas porque não podemos dizer que toda psicologia soviética é histórico-cultural?
Para isso, é necessário entender quais são as principais diferenças entre elas. Confira a seguir dois pontos muito importantes que as diferenciam 👇🏽
1 – O objeto de estudo
Você já entendeu que toda psicologia soviética é marxista, defendendo que o desenvolvimento psicológico precisa ser estudado a partir de suas bases materiais, mas isso não garante que toda psicologia marxista estude o mesmo objeto.
Por exemplo, enquanto o objeto de estudo da Psicologia Histórico-Cultural, é a consciência, a Teoria da Atividade de Leontiev estabelece como a célula central do psiquismo a atividade, enquanto Miasischev estabelece como foco de análise as relações. Perceba que todas são psicologias marxistas e soviéticas, mas nem todas se encaixam na Psicologia Histórico-Cultural.
Entretanto, outros psicólogos realizaram investigações e construíram contribuições alinhadas com a Psicologia Histórico-Cultural de L. S. Vigotski! Alguns exemplos são: Bluma Zeigarnik, D. Elkonin, A. N. Leontiev, A. R. Luria, dentre outros que fizeram parte dos chamamos círculos vigotskianos.
2- Os métodos e as leis do desenvolvimento
Bem, você já sabe que Vigotski criou uma teoria própria, com leis, conceitos e métodos que são específicos e ancorados no Materialismo Histórico e Dialético, algumas dessas concepções são:
– Lei Genética Geral do Desenvolvimento
– Método Genético-Experimental
– Conceitos como mediação, função psicológica superior, zona de desenvolvimento próximo, dentre outros também
Para ser Psicologia Histórico-Cultural, precisa partir das concepções de Vigotski. Quando isso se modifica, vemos o nascimento de uma nova psicologia marxista, mas não histórico-cultural. Exemplos de autores importantes da psicologia soviética que não são histórico-culturais são Miasischev, que criou a Teoria das Relações, com outros conceitos e métodos de pesquisa e intervenção.
Resumindo para você…
O termo Psicologia Soviética abarca as teorias de psicólogos datados no período do início da União Soviética até a sua queda no começo dos anos 1990. Apresentam como semelhança a influência marxista como base.
Enquanto isso, a Psicologia Histórico-Cultural se trata especificamente do sistema psicológico desenvolvimento por Vigotski e seus colaboradores e, para ser PHC, é necessário:
– ter o mesmo objeto de pesquisa de Vygotsky, ou seja, a consciência
– seguir as mesmas leis e princípios metodológicos vigotskianos.
Por isso, dizemos que nem toda psicologia soviética é psicologia histórico-cultural.
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