Vigotski era um psicólogo clínico?

Essa é uma pergunta que frequentemente recebemos em nossas aulas, cursos ou até mesmo nas caixinhas de perguntas em nosso instagram, e é uma dúvida bastante genuína, pois como vamos trabalhar com uma teoria que nem sequer sabemos se tem base para a clínica desde os seus fundamentos, não é mesmo?

As contribuições de Vigotski estão presentes em diversas produções científicas nas áreas da Psicologia da Educação, Psicologia Social, entretanto, no contexto da clínica, nem sempre conseguimos encontrar tão facilmente quem faça as pontes para aprendermos mais facilmente. 

Isso acontece, pois a Psicologia Histórico-Cultural foi silenciada e não devidamente estudada no Brasil. Por muito tempo, acreditou-se que Vigotski não apresentava contribuições para a clínica psicológica, visto que, quando a PHC chegou ao Brasil nos anos de 1970, ela era encontrada de forma restrita aos campos da Psicologia da Educação e da Psicologia Social.

Afinal, o nosso querido Vigotski era ou não um psicólogo clínico? Para respondermos a essa questão, primeiro temos que compreender o que estamos chamando de psicologia clínica, vamos entender melhor?

A psicologia clínica

O conceito de clínica surge a partir do termo grego kline – que significa leito ou cama – e geralmente é utilizado em contextos nos quais o especialista trata de pessoas em um leito. Para sermos mais diretos, tem uma conotação de algo vertical e passivo. 

No caso da psicologia, por muito tempo, essa ideia vertical e passiva se manteve, com modelos de psicologia clínica que ora patologizavam o sofrimento psíquico, ora viam o ser humano com um conjunto de reflexos, ora como um ser abstrato e que responde a forças inconscientes indiscriminadamente.

Vigotski, por outro lado, surge com uma perspectiva diferenciada – contrapondo-se à ideia de que o psiquismo humano pode ser compreendido de forma isolada – para ele, o desenvolvimento psicológico é intrinsecamente social, mediado por ferramentas culturais e pela interação dialética e dialógica com o meio.

Dessa forma, a partir dessa crítica às psicologias clínicas tradicionais, Vygotsky contribui, com a Psicologia Histórico-Cultural, para uma prática clínica que considera que é o contexto social que constitui o ser humano, nem sendo possível pensar o ser humano com o conhecemos ser levar isso em consideração.

Mas Vigotski era de fato um psicólogo clínico?

Sim! Vigotski também era um clínico e desenvolveu estudos sobre pedologia e defectologia, nos quais se debruçava sobre o desenvolvimento de crianças com problemas de desenvolvimento no contexto da clínica, atuando, aos moldes da época, como um psicoterapeuta.

Além disso, vale destacar que ele se dedicou ao estudo de outras temáticas do campo clínico, tais quais esquizofrenia, Mal de Pick, afasia, histeria e a própria psicoterapia, como podemos ler em seus recentemente publicados Cadernos Clínicos.

A Psicologia Histórico-Cultural é sistema teórico complexo e completo com uma teoria própria dos períodos do desenvolvimento mental, uma concepção única acerca do adoecimento psíquico, além de perspectivas e estratégias próprias de pesquisa e intervenção.

Na clínica, a PHC considera a importância da atividade coletiva para a formação da atividade mental interna, dos processos de interiorização, das idades psicológicas, das zonas de desenvolvimento e muito mais. Vigotski criou uma psicologia geral, que nos muniu de ideias, conceitos e métodos que nos ajudam a pensar vários problemas psicológicos, inclusive os clínicos!

Resumindo para você…

Vygotsky foi sim um clínico e, com a proposta de criação de uma psicologia geral, podemos pensar seus conceitos, pressupostos e métodos em quais campos da psicologia, inclusive a clínica e a psicoterapia. A PHC é um sistema robusto que nos permite olhar para a práxis psicológica em qualquer campo.

No âmbito clínico histórico-cultural, o psicólogo produz intervenções que mobilizam processos no intuito de que as funções mentais sejam habilitadas, funcionem de forma interfuncional e auxiliem em uma relação mais consciente e autônoma quanto aos

enfrentamentos ao longo do desenvolvimento psíquico.

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