A Clínica Histórico-Cultural com adultos

Você já se perguntou como funciona a clínica com adultos na perspectiva histórico-cultural?

A psicologia histórico-cultural tem como um dos seus objetivos a promoção do desenvolvimento. Este caracteriza-se como um processo dialético por meio do qual o ser humano se constitui.

Correntes mais tradicionais da Psicologia apontam que a construção do desenvolvimento se encerra no fim da adolescência. Em contraponto, a PHC compreende esse conceito como um processo que é constante e, portanto, acontece ao longo de toda a nossa vida!

Dessa forma, vamos explorar a seguir alguns pontos essenciais para entender como podemos contribuir para a potencialização do desenvolvimento e fortalecimento da consciência de adultos na prática clínica histórico-cultural.

O desenvolvimento é um processo ontogenético contínuo 

Compreendemos que o desenvolvimento concerne, também, à ontogênese de uma pessoa (seu ciclo de vida – nascimento, infância, adolescência, vida adulta e velhice), mas que, além disso, é um processo mediado e intencional que acontece na relação entre terapeuta histórico-cultural e paciente.

Embora não se possa apontar para um modelo universal e homogêneo de definição do ser adulta(o), adentrar nas particularidades do tempo histórico e da cultura que está forjando essas pessoas na contemporaneidade é imprescindível para a psicoterapia histórico-cultural.

Assim, a práxis psicológica de uma Clínica Histórico-Cultural parte da problematização do lugar que o desenvolvimento ontogenético ocupa na vida adulta, compreendendo as implicações e as particularidades na vida de cada paciente.

O trabalho como atividade-guia do adulto

Autores na esteira da PHC apresentam que a atividade-guia na adultez é a atividade de produção social, que se expressa por meio do trabalho. Desse modo, o trabalho desempenha o papel de transformação da natureza decorrente das necessidades humanas e proporcionaria condições para saltos qualitativos no desenvolvimento.

Contudo, no sistema capitalista, o trabalho deixa de refletir ideias de transformação qualitativa e desenvolvimento como no homem pré-capital, mas adquire, então, o caráter de mercadoria, uma instância objetificada e enrijecida.

Ou seja, o estudo do desenvolvimento psicológico da pessoa adulta não pode acontecer fora da compreensão de que vivemos sob uma lógica da luta de classes e demais desigualdades sociais.

As consequências do sistema capitalista no psiquismo

As consequências psicológicas do capitalismo, portanto, são diversas e podem se expressar mais proeminentemente na vida adulta, visto que a centralidade do trabalho em tal momento do desenvolvimento é ainda mais marcante.

Observa-se que o distanciamento entre a(o) trabalhadora(o) e o produto do seu trabalho é internalizado e se torna, igualmente, um mediador da vida psíquica. Dessa forma, a pessoa adulta experimenta um distanciamento de sua própria realidade, relações e vivências.

O trabalho alienante e adoecedor, portanto, promove diversas violências e prejuízos para a vida da pessoa adulta. Outros desafios que podemos mencionar são: o enrijecimento de funções psicológicas vitais para o cotidiano da(o) adulta(o), como a criatividade, a habilidade de solucionar problemas e as emoções; alterações na autopercepção e/ou autoconceito; entre outros.

A atuação na clínica

Com isso, a prática clínica deve se apresentar como espaço de transformação e ampliação da consciência da pessoa adulta, compromissada com a superação das dificuldades consequentes do capitalismo, por meio da relação dialógica e dialética entre paciente e psicoterapeuta.

Para concretizar isso, a(o) psicoterapeuta histórico-cultural deve mediar intervenções que auxiliem o paciente a se posicionar perante o próprio sofrimento, construindo sentidos mais saudáveis e menos alienantes sobre a realidade em que está inserido.

Pode ainda mediar processos de ampliação de consciência, expandindo a visão de mundo do paciente ao conectar a(s) demanda(s) expressa(s) aos fenômenos macro políticos de carácter sociocultural, em uma caminhada objetiva fornecer a construção de estratégias de enfrentamento para lidar com as imposições e expectativas tão violentas associadas ao sistema capitalista.

Mas lembre-se que tal execução depende de uma avaliação profunda e atenciosa da história de vida do paciente, entendendo que cada desenvolvimento é único! Isso possibilita a elaboração de intervenções mais contextualizadas e personalizadas.

Em conclusão…
 

É necessário olhar o paciente situado em um contexto social e histórico que o envolve e que o constitui. Portanto, ao reconhecer que o desenvolvimento humano é um processo contínuo que perdura por toda a vida, a Clínica Histórico-Cultural reafirma seu compromisso ético-político ao compreender o adulto em sua totalidade concreta.

Ao problematizar o impacto das relações de trabalho e das estruturas capitalistas na subjetividade, a prática clínica torna-se um espaço fundamental de resistência, buscando ampliar sua consciência crítica e um desenvolvimento mais autônomo, singular e emancipador frente às contradições da realidade social.

E atenção: a psicoterapia isolada não será responsável pelo desmonte direto do capitalismo, porém, a(o) psicóloga(o) clínico histórico-cultural deve incluir, como parte do compromisso ético-político de sua práxis, o fortalecimento emocional do humano revolucionário, o qual poderá, em coletivo, atuar no desmonte das estruturas capitalistas.

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