A atuação na clínica histórico-cultural com idosos

Você sabe como podemos atuar clinicamente com pessoas idosas na perspectiva histórico-cultural? Vem entender!

Assim como em qualquer outro período de desenvolvimento, a velhice se trata de um processo dinâmico e dialético, com potencialidades e crises. Entretanto, no senso comum, ela vem sendo associada ao declínio das funções físicas e ausência de função social, construindo um imaginário social desse período como um momento estático, passivo e de espera à morte.

A partir de uma visão histórico-cultural, esse período carrega diversas outras possibilidades que transcendem um processo de declínio ao considerar as potencialidades da pessoa idosa e a valorização da contribuição exercida pelo seu ser social. Isso implica em conceber a velhice numa perspectiva que esteja além de suas funções biológicas, físicas e econômicas.

Desse modo, a seguir vamos explorar alguns pontos essenciais que todo psicoterapeuta histórico-cultural deve estar atento ao atuar na clínica com a população idosa!

O idoso como um ser de potencialidades

A passagem para a velhice é uma época marcada por contradições, pois a pessoa idosa, por não ocupar um lugar central na cadeia produtiva, tende a ter mais oportunidades para refletir sobre as situações que ocorreram ao longo de sua vida. Nesse período, o vigor físico tende a diminuir e ele ou ela pode se questionar sobre questões relacionadas à morte e medo da solidão.

Atualmente, não cabe mais pensar no indivíduo idoso como o representante de uma geração que já vivenciou o seu ápice, uma vez que estes participam ativamente na vida social, mantendo atividades de trabalho e, muitas vezes, sendo responsável pelo sustento da família.

É preciso perceber a pessoa idosa numa perspectiva que não associe a velhice à doença ou à morte, mas que considere todas as diversas possibilidades de mudança da psique que são promovidas pela atividade humana. Isso implica em enxergá-lo como um indivíduo para além de limitações físicas, valorizando sua história, participação e transformações ativas na sociedade.

A nova situação social de desenvolvimento

Essa nova situação social de desenvolvimento, que surge durante esse período, pode se configurar a partir de fatores como novas expectativas sociais, o afastamento de vínculos formais de trabalho, o falecimento de pessoas próximas e o surgimento de adoecimentos crônicos decorrentes do tempo e do estilo de vida, entre outros elementos que podem desencadear crises e rupturas no desenvolvimento, até que novas neoformações psíquicas sejam produzidas.

Nesse contexto, a aposentadoria surge como um importante marco na transição entre a idade adulta e a velhice. Embora, como já apontado, o idoso possa continuar exercendo atividades laborais, sua relação com o trabalho passa por transformações, uma vez que a expectativa de produtividade e lucro atribuída a ele é socialmente menor do que aquela associada ao adulto.

Com a aposentadoria, a identidade construída ao longo da vida passa a ser questionada e relativizada. As limitações físicas próprias do envelhecimento podem, ainda, impossibilitar a continuidade das mesmas atividades exercidas anteriormente. 

Somado a isso, a perda da rotina, a redução dos espaços de convívio social e a diminuição da prática de atividades físicas, tornam-se fatores que podem acelerar o declínio do desempenho cognitivo, assim como contribuir com processos de adoecimento.

A atividade na velhice

Compreende-se, a partir da PHC, que o homem se desenvolve a partir da atividade. Sendo assim, a vida psíquica do indivíduo pode ser compreendida somente a partir da assimilação da atividade deste. Por sua vez, a atividade é condicionada pelas características gerais do ser humano, as quais são organizadas e desenvolvidas no curso da história e cultura humanas.

É possível afirmar que a atividade influencia a dinâmica entre as funções psicológicas superiores como emoções, vontade, formação de conceitos, pensamento, entre outros. Embora as funções psicológicas superiores tenham base biológica, seu desenvolvimento é promovido pelo relacionamento do indivíduo com o mundo, o que implica dizer que o desenvolvimento é um processo socialmente construído.

Embora suas estruturas não mudem, a conexão entre elas se transforma a partir da construção de diferentes significados e sentidos para a atividade. Nesse viés, a interação social é um aspecto primordial que fortalece o desenvolvimento do indivíduo idoso, possibilitando a (re)construção de novos significados e sentidos para a sua vida. 

A atuação na clínica

A atuação clínica se dará justamente na promoção de mediações que alterem esses significados e sentidos, buscando construir juntamente ao paciente idoso formas mais saudáveis de experienciar a vida, através da atividade. 

Com uma mediação bem-sucedida, o indivíduo poderá produzir neoformações que permitirão a superação da crise/processo de sofrimento vivenciado por ele e suas funções psicológicas superiores responderão, de maneira única e singular, às necessidades geradas pela sua situação social de desenvolvimento. 

Isso envolve dizer que o processo terapêutico histórico-cultural, quando direcionado às necessidades do idoso e ao oferecer mediações adequadas a cada caso, promove a reabilitação das funções psicológicas superiores quando estas foram prejudicadas por diferentes situações ao longo da vida.

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