Sabemos que a Psicologia clínica Histórico-Cultural é a perspectiva terapêutica fundamentada no trabalho do psicólogo soviético Vigotski e seus colaboradores, como A. Luria, Leontiev, Zeigarnik, dentre outros.
Caracterizada como um sistema teórico-clínico completo e complexo, essa perspectiva possui seus próprios conceitos, estratégias de manejo clínico e métodos de investigação.
Ainda assim, a Clínica Histórico-Cultural sofre influências importantes de sistemas filosófico-epistemológicos e metodológicos, sendo uma das grandes contribuições filosóficas: a Teoria dos Afetos, do filósofo Baruch Espinosa.
Portanto, a seguir, vamos explorar as principais implicações da Teoria Espinosana para a prática clínica histórico-cultural!
O caráter dialógico na clínica
A primeira implicação de Espinosa que podemos perceber na clínica histórico cultural situa-se no caráter dialógico desta última. Trata-se de uma prática psicoterapêutica que privilegia, por intermédio da linguagem, a construção da relação entre psicoterapeuta histórico-cultural e paciente, o estabelecimento do vínculo terapêutico, bem como a produção de sentidos a partir da mediação do outro.
Nesse viés, a clínica se torna um espaço de troca e produção de sentidos através do espaço simbólico criado pela linguagem. E esse processo dialógico não se dá em um indivíduo isolado e alienado da realidade histórica, mas se dá no campo das relações.
Essa ideia de que o indivíduo só produz sentido em relação é consequência de ideias espinosanas como física, movimento e encontro. Desse modo, trata-se de uma relação terapêutica em que tanto psicoterapeuta histórico- cultural como paciente produzem sentidos e provocam mudança um no outro.
O cenário terapêutico
A segunda influência de Espinosa reside na ideia de cenário terapêutico, um conceito que utilizamos para referir ao setting clínico na abordagem histórico-cultural.
O nosso querido Vigotski compreendia que os contornos subjetivos humanos se desenvolvem em um drama, marcado por iminentes contradições, que fazem com que o cenário onde as narrativas se dão sejam complexas e estejam em constante movimento.
Mas, acontece que as relações humanas para Espinosa também podem ser contraditórias, em especial, quando os encontros produzem afetos tristes, levando o paciente a um modo de vida marcado pela falta de liberdade.
Assim, o cenário terapêutico histórico-cultural, fundamentado na ideia de drama, não pode ser outra coisa senão um lugar em que os personagens se encontram, produzem sentidos e lidam com as contradições que derivam dos encontros. Desse modo, a caminhada terapêutica é construída com o esforço de o psicoterapeuta histórico-cultural organizar mediações que favorecem encontros felizes e potencializadores no cenário terapêutico.
A atividade e o movimento
Por último, apresentamos o conceito de movimento como uma outra implicação espinosana na clínica HC. Assumir que todo o processo de produção de sentido se dá no movimento, como vimos acima, nos remete a um aspecto central na PHC: a atividade.
Nessa perspectiva, não há produção de sentido fora da atividade, sendo esta última o processo de transformação ativo e intencional do ser humano da realidade concreta e psicológica, como é definido por Leontiev.
Conseguimos perceber então a relação entre atividade e movimento, e como as ideias são importantes para as teorias em questão. Espinosa constrói uma teoria em que os corpos estão sempre em movimento, efetuando encontros e produzindo afetos. Essa relação nos conecta com a ideia de que a Psicologia clínica Histórico-Cultural afirma o paciente como um ser vivo e ativo.
Dessa forma, a relação terapêutica histórico-cultural é uma via de mão dupla, na qual paciente e psicólogo clínico histórico-cultural afetam um ao outro através do espaço simbólico criado pela linguagem.
Em conclusão…
A Filosofia dos Afetos de Espinosa marca a clínica histórico-cultural em três frentes:
1) O caráter dialógico, que faz da produção de sentidos um processo relacional, nunca isolado;
2) O cenário terapêutico, entendido como dramático, atravessado por contradições e encontros que podem ampliar ou reduzir a potência de agir do paciente ao longo do desenvolvimento;
3) E a atividade, que reafirma uma prática eminentemente viva e o movimento como condição para que sentidos sejam produzidos.
Juntas, essas influências revelam uma clínica na qual psicoterapeuta e paciente se afetam mutuamente, construindo saúde através da linguagem, do encontro e do movimento constante.
Se esse conteúdo fez sentido pra você, você pode se aprofundar nessa temática no nosso curso de Introdução à clínica histórico-cultural!
