Abordagens tradicionais da psicologia concebem a “personalidade” como um sistema fechado e que está consolidada desde o nascimento do sujeito, estabelecidos a partir de uma lógica individualista e separada do mundo objetivo.
Entretanto, a perspectiva histórico-cultural visualiza esse conceito através de uma ótica diferente: o ser humano só se individualiza pelo processo histórico-social, e só é um ser social singular na medida em que é um ser social genérico.
Desse modo, como podemos pensar a construção da personalidade em tempos que tudo vira produto e consumo? É o que vamos discutir nos pontos a seguir!
1 – A formação da personalidade
Grande parte dos estudos sobre o tema da personalidade segue concepções idealistas e carregadas de significados abstratos e psicologizantes. Nelas, a personalidade aparece como propriedade de um ser particular que se sobrepõe à realidade concreta.
Desse modo, ela seria um sistema fechado, um centro organizador que, desde o nascimento, nortearia as estruturas psicológicas e apenas se atualizaria quando as condições de existência permitissem.
Contudo, essas abordagens tradicionais colocam o indivíduo como centro do processo de personalização e o separam da realidade concreta, não alcançando o fenômeno em sua totalidade concreta, isto é, na unidade indissolúvel entre o indivíduo e o gênero humano.
Isso porque o que há de mais singular no indivíduo é justamente a sua construção genérica: o ser humano só se individualiza pelo processo histórico-social, e só é um ser social singular na medida em que é um ser social genérico!
Entender a personalidade dessa forma significa compreender que ela não é produzida pelo indivíduo isoladamente, mas é resultado da atividade social e da trama de relações entre as pessoas.
2 – A atividade na formação do psiquismo humano
Sabemos que é pela atividade que o psiquismo humano se desenvolve. Em suas diversas formas, ela produz capacidades, motivos, finalidades e sentidos, ou seja, o conjunto de processos pelos quais o indivíduo adquire existência psicológica!
É a partir dessa visão que temos a personalidade como uma formação psicológica que se constitui pelas transformações da atividade que, por sua vez, concebe as relações do indivíduo com o meio.
Nesse viés, um fator importante aparece: a compreensão de si mesmo. Para organizar a atividade em torno de motivos vitais, ou seja, aqueles que produzem sentido para a vida, é preciso um reconhecimento permanente de si. E isso exige o confronto, mediado pela consciência, entre atividades e motivos.
Sem isso, o indivíduo passa a viver de forma fragmentada, guiado por motivos que não carregam sentidos vitais para ele (conceituados como motivos-estímulo), causando sofrimento. Dessa maneira, dentro da estrutura motivacional na personalidade, quando há uma ruptura entre o significado e o sentido da atividade, conceituamos esse processo de alienação.
3 – Alienação, capitalismo e personalidade
Na sociedade de classes em que vivemos, a divisão social do trabalho produz uma ruptura entre significado e sentido pessoal. O trabalhador se aparta do próprio trabalho, e sua atividade deixa de ser para ele o que de fato é.
Como as relações de dominação alienam a apropriação e a objetivação, o indivíduo passa a se organizar pela particularidade, o que limita a consciência sobre si. Superar isso exige uma relação consciente com a genericidade, isto é, com o gênero humano.
Nessas condições, o indivíduo não aparece como sujeito do desenvolvimento de suas capacidades. A personalidade não expressa suas necessidades e aspirações, e a individualidade, regida pelo valor de troca, vira mercadoria, ou seja, nega a si mesma.
Com isso, essas características atingem o trabalho e a vida pessoal, e as pessoas deixam de ser autoras para se tornarem co autores da própria vida!
4 – Como o psicoterapeuta histórico-cultural pode agir?
Como a alienação é inerente ao capitalismo, seu efeito diminui quanto mais o indivíduo compreende sua existência para além da particularidade. Assim, superar a alienação e desenvolver plenamente a personalidade exige retomar o controle consciente das circunstâncias e de si mesmo, rumo à prática revolucionária.
Nesse sentido, a atuação do psicoterapeuta histórico-cultural deve buscar compreender a pessoa situada em sua realidade concreta, olhando para suas relações, seu trabalho e a sua história.
O trabalho clínico corrobora para que o paciente examine a relação entre suas atividades, seus motivos e os sentidos que elas têm para ele, identificando onde há ruptura entre significado social e sentido pessoal.
Com isso, fortalece a ampliação da consciência sobre si e expande as apropriações que o paciente pode fazer, apoiando-o na produção de novos sentidos e reposicionando-o frente ao seu sofrimento.
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