Falar sobre a adolescência é falarde complexificação, de se apropriar do mundo e de se posicionar criticamente diante da realidade.
A Psicologia Histórico-Cultural oferece uma perspectiva rica e complexa sobre esse período do desenvolvimento, indo além das visões de abordagens tradicionais da Psicologia que focam especificamente em mudanças biológicas e hormonais. Essa abordagem compreende a adolescência como um período de desenvolvimento psicológico e um fenômeno cultural, moldado pelas transformações históricas e sociais.
Na Clínica Histórico-Cultural, alguns aspectos tornam-se cruciais durante a caminhada terapêutica com adolescentes. A seguir vamos explorar esses pontos que poderão potencializar a sua prática clínica!
A compreensão da adolescência como construção social
Na perspectiva histórico-cultural, a adolescência não é apenas um processo natural de maturação biológica, mas também uma construção social e cultural, influenciada pelos modos de produção e pelas relações sociais estabelecidas em cada contexto histórico.
Mas atenção! Isso não significa que as mudanças físicas e hormonais não são reconhecidas, mas elas não são vistas como os únicos fatores determinantes do desenvolvimento adolescente.
Por isso, para a abordagem vigotskiana, os contextos social e cultural são essenciais na formação da personalidade e no desenvolvimento dos adolescentes, uma vez que é por meio das interações sociais, das atividades realizadas e das experiências vividas que ele compreenderá a si mesmo e ao mundo ao seu redor.
O desenvolvimento psicológico e a formação de conceitos
A abordagem vigotskiana, então, reconhece esse período como um momento de intensas transformações cognitivas e sociais, no qual o adolescente se torna capaz de pensar de forma abstrata, questionar a realidade e construir sua própria identidade.
Vigotski, em seus escritos, traz o conceito da formação do pensamento por conceitos – caracterizado como um dos processos psicológicos superiores que constituem o nosso psiquismo. É a partir dele que nossos conceitos espontâneos e formais são constituídos, dando base para nossa atividade no mundo e para ampliação ou estreitamento da nossa conduta.
Ele ainda destaca que esse processo promove um salto qualitativo durante esse momento do desenvolvimento, que proporciona a internalização de conhecimentos complexos, a construção de significados e a apropriação do mundo de forma crítica e ativa.
O papel da mediação e das zonas de desenvolvimento
Na Clínica Histórico-Cultural, esses processos tornam-se cruciais para a organização das mediações durante a caminhada terapêutica.
Nessa perspectiva, a formação de conceitos pode ser entendida como uma das principais zonas de desenvolvimento nas quais o psicoterapeuta histórico-cultural irá intencionalmente intervir, uma vez que, a depender dos conceitos que formamos, por exemplo, sobre família e amizade, poderá facilitar ou dificultar a produção de saúde no desenvolvimento psicológico.
A mediação, nesse cenário, não se trata somente de um processo facilitador, mas de um meio que auxilia o paciente a expandir suas capacidades psíquicas, ou seja, fornecendo suporte e orientação dentro da Zona de Desenvolvimento Próxima (ZDP). Dessa forma, o psicoterapeuta pode desafiar o paciente a ir além de suas capacidades atuais, promovendo a construção de novos conhecimentos e significados.
É esse o tipo de desenvolvimento que devemos intencionalmente organizar – aquele que expande os níveis de desenvolvimento do paciente e proporciona o fortalecimento da sua consciência, sua atividade e suas funções psicológicas superiores.
O vínculo terapêutico na clínica
Nesse sentido, a construção do vínculo no processo psicoterapêutico torna-se a base para um relacionamento de confiança e empatia entre psicoterapeuta histórico-cultural e paciente, permitindo uma comunicação aberta e honesta, em que o paciente expresse seus sentimentos e pensamentos de forma autêntica, sem medo de julgamento ou rejeição.
O vínculo terapêutico, portanto, configura-se como um espaço de mediação, onde é constituído a partir de uma construção dinâmica, dialética e cheia de intencionalidades.
Mas é importante lembrar que: a construção do vínculo é uma relação de mão dupla, em que psicoterapeuta histórico-cultural e paciente se conectam mutuamente. Por isso, é um processo contínuo e dinâmico que exige paciência, empatia e sensibilidade!
Em conclusão…
Falar sobre a adolescência na Clínica Histórico-Cultural é falar de um ser ativo e capaz de complexas transformações. O psicoterapeuta histórico-cultural, através do diálogo, da escuta ativa, dos signos e dos instrumentos, cria um ambiente seguro e acolhedor, onde o paciente se sinta à vontade para explorar suas emoções, seus pensamentos e suas dificuldades.
Vale salientar que a nossa prática deve ser sempre intencional, com nossas intervenções focadas na promoção de desenvolvimento, fortalecendo a consciência, as atividades e as funções psicológicas superiores do paciente.
