Você já se perguntou como funciona a clínica com crianças na perspectiva histórico-cultural?
Sabemos que a PHC se destaca por ter seu foco nas relações sociais e culturais que constituem os processos de desenvolvimento. Com o público infantil, as interações familiares, as práticas escolares e as experiências cotidianas são consideradas na compreensão de como as crianças significam a si e ao mundo.
Uma curiosidade é que o nosso querido Vigotski atuou clinicamente com crianças, trabalhando com temas como neuroses infantis, alterações comportamentais e também com desdobramentos emocionais do alcoolismo parental em crianças. Desse modo, no contexto clínico, essa perspectiva proporciona uma forma rica de compreender as experiências e os desafios enfrentados pelas crianças e de como tais aspectos podem ser trabalhados na psicoterapia.
Assim, vamos explorar 4 pontos a seguir que são essenciais ao pensar em uma prática clínica histórico-cultural com crianças!
A noção de desenvolvimento na PHC
A Psicologia Histórico-Cultural não considera que as crianças se desenvolvem de maneira isolada, mas inseridas em uma teia de significados sociais, culturais e históricos. Vigotski discute que as funções psicológicas superiores, como a atenção, a memória e a linguagem, não são meras capacidades inatas, mas construções que se desenvolvem na interação com o social e com a cultura.
Dessa forma, essa noção de desenvolvimento parte do pressuposto que tudo o que, hoje, é realidade interna, um dia já foi realidade externa. Aquilo que é intrapsicológico é, em sua gênese, interpsicológico, isto é, já esteve no campo das relações sociais, as quais internalizamos e nos apropriamos de forma singular. Vigotski nomeou essa ideia como a Lei Genética Geral do Desenvolvimento!
A partir disso, o olhar para a construção da personalidade da criança, da sua atividade e da sua conduta é compreendido como um processo que emerge na relação com o outro, o qual, no caso da criança, comumente, será os seus cuidadores ou as pessoas com quem convive em diversos contextos.
O raciocínio clínico contextualizado
A construção do nosso raciocínio clínico na psicoterapia histórico-cultural com crianças deve estar pautada na premissa de que não existe demanda clínica infantil descontextualizada e sem história.
Problemas de atenção, de impulsividade, de relacionamento dificultado com autoridades ou, ainda, mudanças emocionais na conduta das crianças, entre outras demandas, devem ser investigadas na relação que a criança estabelece com a realidade concreta e com sua própria história.
Ao compreender que o comportamento das crianças e suas dores psíquicas estão enraizadas em processos de mediação e desenvolvimento (que nem sempre serão saudáveis), o psicoterapeuta histórico-cultural infantil precisará organizar mediações clínicas lúdicas que atuem nas zonas de desenvolvimento dos seus pacientes.
A zona de desenvolvimento próxima
Ressalta-se, a partir de então, o conceito de zona de desenvolvimento próxima, ou apenas ZDP, a qual é definida como o espaço simbólico de aprendizagem e desenvolvimento que se forma na relação do indivíduo com o mundo.
Ela promove a construção de um lugar de conexões formais e informais que irão operar mudanças qualitativas na forma como o psiquismo da criança se desenvolve. Entretanto, a criança só pode expandir essa zona com o auxílio de um adulto, na convivência com outra criança com habilidades mais avançadas ou ao ter acesso a instrumentos da cultura.
No contexto clínico, a ZDP pode corroborar para revelar dificuldades no enfrentamento de demandas clínicas cognitivas ou emocionais, as quais as crianças, por meio da mediação terapêutica, podem criar novas formas de resolver conflitos.
O psicoterapeuta, então, cumpre um papel primordial na promoção de desenvolvimento, transformação e autonomia com mediadores de saúde que complexifiquem seus recursos cognitivos e emocionais.
A vivência na clínica infantil
Com isso, entendemos até então que o psicoterapeuta não apenas observa o desenvolvimento da criança, mas também investiga as dinâmicas sociais e culturais que permitem a transformação da consciência infantil. E a vivência adentra a discussão como mais um elemento essencial a ser considerado em nossa prática clínica!
A vivência é reconhecida como a síntese dos encontros que realizamos com a realidade concreta, quando somos atravessados ou interagimos com os elementos mediadores da cultura. Dessa forma, como nossa relação com o mundo é dialética, experimentamos uma variedade de vivências o tempo todo.
A experiência cotidiana, integrada com a linguagem, oferece à criança a possibilidade de reconstruir suas próprias experiências dentro de um contexto mais amplo. Nesse sentido, o psicoterapeuta histórico-cultural durante as vivências que se desdobram na caminhada terapêutica, poderá auxiliar a criança na organização das funções psicológicas superiores, potencializando a capacidade de regulação de sua própria conduta.
Em conclusão…
É fundamental reconhecer que as experiências vividas no cotidiano, seja no convívio familiar ou social, influenciam as reações emocionais e comportamentais da criança. Por isso, a intervenção clínica precisa estar atenta ao modo como elas significam suas próprias vivências, mediando caminhos que promovam uma reorganização cognitiva e emocional de forma mais integral.
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