Oi, turma! Aqui é o Prof. Dr, Neto Oliveira, e o texto desta semana é uma conversa bem próxima entre mim e vocês sobre um dos conceitos que mais gostei de desenvolver no meu trabalho como professor, pesquisador e psicólogo na área de Clínica Histórico-Cultural.
O conceito de caminhada terapêutica começou a surgir do meu trabalho como supervisor clínico. Supervisionei e continuo supervisionando muitas e muitos psis histórico-culturais por todo o Brasil, tanto individualmente como em grupos.
Especificamente nos grupos, que refletem uma época em que outros psis histórico-culturais estavam trabalhando comigo a título de aprenderem a supervisionar e firmar suas práticas clínicas, comecei a desenvolver o conceito de caminhada terapêutica.
Compreenda a história e as bases desse conceito da clínica histórico-cultural!
A caminhada terapêutica é uma ideia que nasceu do meu contato com a teoria do acompanhamento psicossocial de Mary Watkins, uma renomada psicóloga estadunidense, que, em seu trabalho em instituições de saúde mental, propôs um modelo de intervenção dialógico, o que significa o afastamento da patologização dos transtornos mentais graves, bem como a aproximação de uma atuação mais humanizada.
Lembro que, no meu primeiro contato com os seus textos, eu pensei: “Isso tem cheiro de Psicologia Histórico-Cultural!”, afinal a teoria de Vigotski, por beber do Materialismo Histórico e Dialético e da Filosofia dos Afetos, propõe uma clínica que se faz na relação com o outro e que não é vertical, mas sim produzida na afetação e nos processos de desenvolvimento que psicoterapeuta histórico-cultural e paciente produzem um(a) no(a) outro(a).
Foi assim que o conceito nasceu, como uma metáfora que nos convoca a pensar a clínica histórico-cultural como um processo colaborativo, em que o psicólogo clínico histórico-cultural propõe para o paciente um caminho a ser trilhado, o qual se identifica com a busca por desenvolvimento e saúde mental.
Nesse processo, temos entendido que, apesar de, sim, ser o psicólogo histórico-cultural quem domina e detém as teorias e as técnicas psicoterápicas, a caminhada traçada se dá a dois. Assim é da relação entre psicoterapeuta histórico-cultural e paciente que vamos decidir, por exemplo: que instrumentos usar, quanto tempo a psicoterapia vai durar, se vamos ou não explorar certas zonas de sentido do paciente ou não em dado momento da psicoterapia, ou ainda se vamos acelerar ou desacelerar no trabalho com certas dores presentes em suas vivências.
Faz sentido pra você? Então continua lendo, que quero te explicar mais uma coisa!
Da metáfora à criação do conceito
Aqui no Veresk, somos muito sério com a ciência! Então não poderíamos, se quiséssemos chamar de conceito, usar somente nossa experiência de supervisão para formular uma ideia; experiência essa que foi riquíssima tanto na relação com nossos alunos como com nossos colegas de trabalho que estavam aprendendo, à época, como supervisionar na clínica histórico-cultural, já que estavam em seus primeiros passos também como psicoterapeutas.
Foi assim que, em minha tese de doutorado, eu pus a prova o conceito de caminhada terapêutica.
Além de ser uma metáfora para explicar a relação dialética e dialógica que temos na clínica histórico-cultural, a caminhada terapêutica também dá conta de mostrar que a clínica histórico-cultural pode ter desenhos, que podem ser organizados em períodos terapêuticos, assim como Vigotski e Elkonin fizeram com o desenvolvimento psíquico.
Os períodos terapêuticos não são fases estáticas, mas momentos dialéticos da caminhada terapêutica (o percurso clínico na abordagem histórico-cultural), os quais podem até mesmo ser simultâneos um ao outro, não tendo nada a ver com estrutura fixa. Este é um assunto que você pode aprofundar em nosso livro de casos clínicos.
Mas, para você ter uma prévia, os períodos são:
- Acolhimento e Intervenção na Síndrome Sintomática
- Diagnóstico Diferencial
- Conscientização
- Intervenção na Zona de Desenvolvimento
- Alta e Enfrentamento Final
Nos encaminhando para um fim…
Eu, prof. Dr. Neto Oliveira, fico muito feliz de poder compartilhar com você um pouquinho da minha caminhada científica e profissional e um dos resultados de todo esse investimento que faço para construir, junto com você, a clínica histórico-cultural no Brasil.
Conceitos só podem ser desenvolvidos à luz de pesquisa científica com método validado por pares, esse é um esforço que a gente precisa fazer caso queira propor ideias e firmá-las como válidas, e é um prazer imenso poder dividir essa trajetória firmada em meus artigos, livros e tese de doutorado.
Nos encontramos muito em breve!
