Ao discutir a atuação clínica na Psicologia Histórico-Cultural, uma das primeiras questões que surge é: qual é o papel da psicóloga ou do psicólogo nessa abordagem? A resposta a essa pergunta exige compreender a forma como a Psicologia Histórico-Cultural entende o desenvolvimento humano, a construção da personalidade e as possibilidades de transformação do paciente na sua relação com o mundo.
Nessa perspectiva, o trabalho clínico vai além da compreensão individual dos fenômenos psicológicos, considerando também as relações sociais, históricas e culturais que participam da formação do ser humano.
Para entender melhor qual o papel do psicólogo em uma atuação clínica fundamentada na Psicologia Histórico-Cultural, a seguir vamos explorar 5 aspectos cruciais que orientam o trabalho desse profissional.
1. Compreender o paciente como um ser histórico e social
A atuação do psicólogo histórico-cultural parte da compreensão de que o ser humano não nasce pronto. Sua personalidade é construída ao longo da história, por meio das relações sociais, da cultura e das condições concretas de vida.
Assim, o sofrimento psíquico não é entendido apenas como algo individual, mas como um fenômeno produzido na relação entre o paciente e a realidade.
Quando assumimos essa perspectiva, compreendemos que somos ativos em nossas relações (principalmente na relação terapêutica) e intencionais na forma como organizamos nossa atividade. Visualizar o ser humano dessa forma proporciona possibilidade para o constante movimento e transformação do indivíduo, desenvolvendo-se a partir da realidade em que vive, que é concreta e material.
2. O psicólogo investiga a história do sofrimento
A partir da compreensão da realidade concreta do indivíduo, o psicólogo histórico-cultural tem como compromisso a investigação e contextualização histórica do seu desenvolvimento.
Como a Psicologia Histórico-Cultural tem na explicação histórica dos fenômenos um dos seus princípios metodológicos, o psicólogo, de forma intencional, intervém rumo a explorar quais vivências construíram a atividade, o comportamento ou a conduta que seu paciente esteja expressando ao longo de todo o seu desenvolvimento.
3. O psicólogo é um agente ativo de transformação
O psicoterapeuta histórico-cultural é eminentemente ativo e promotor de transformação na relação psicoterápica. Isso é possível de ser visualizado na seleção de estratégias e intervenções que o profissional estabelece para a promoção de desenvolvimento e autonomia dos pacientes.
É aquele que tem mais experiência e os recursos necessários para que o processo terapêutico vá ao encontro dos objetivos terapêuticos propostos por ele ao construir o Projeto Terapêutico Singular do paciente.
Contudo, apesar de ter domínio de teorias e técnicas, o psicoterapeuta não deve ocupar o cenário terapêutico a partir do lugar de suposto saber, algo que não é incomum de ser sustentado e ostentado em muitas abordagens tradicionais da psicologia. O psicoterapeuta histórico-cultural caminha ao lado de seu paciente em um processo colaborativo e de mútua promoção de desenvolvimento.
4. A relação terapêutica é colaborativa
Verifica-se que a relação terapêutica envolve movimento e atividade psíquica tanto do psicoterapeuta histórico-cultural quanto do paciente. Nesse sentido, é um processo de transformação mútua, uma vez que, ao realizar intervenções intencionais, o psicoterapeuta favorece a internalização de novos elementos mediadores, que, por sua vez, promoverão um desenvolvimento mais saudável.
Ao mesmo tempo, ao compartilhar suas vivências e experiências, o paciente também impacta o psicoterapeuta, levando-o a construir novos sentidos a partir dessa vivência.
Assim, essa relação horizontal e colaborativa que psicoterapeuta histórico-cultural e paciente constroem faz surgir novas alternativas de desenvolvimento e produz novos sentidos.
5. O papel do vínculo na promoção do desenvolvimento e autonomia
Sabemos agora que também é papel do psicólogo histórico-cultural caminhar ao lado do paciente em seus novos processos de desenvolvimento de forma colaborativa, horizontal e intencional.
Mas, para que isso seja possível, é necessário que haja a construção de um vínculo entre eles, com o intuito de acessar progressivamente a zona de desenvolvimento proximal, favorecendo a ampliação dessa zona, de modo que o paciente se reposicione diante do seu sofrimento.
O vínculo terapêutico se constitui, portanto, como uma importante ferramenta de desenvolvimento dentro do papel do psicólogo histórico-cultural. Por meio de uma relação de confiança e acolhimento, o paciente pode vivenciar novas formas de se relacionar e expandir as suas possibilidades de autonomia e de produção de saúde.
Resumindo para você…
O papel da psicóloga e do psicólogo histórico-cultural consiste em compreender o sujeito em sua totalidade, considerando os aspectos históricos, sociais e culturais que o constitui. A partir dessa compreensão, o profissional investiga a história de desenvolvimento do indivíduo e intervém de forma intencional para promover novas possibilidades de aprendizagem, desenvolvimento e transformação.
Nesse processo, por meio de um vínculo construído de forma colaborativa, psicólogo e paciente caminham juntos na produção de novos sentidos sobre si mesmos e sobre a realidade. Assim, a clínica histórico-cultural busca fortalecer a autonomia, a consciência crítica e as potencialidades de desenvolvimento humano.
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