Um manifesto sobre a desesperança política: Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer!

A Psicologia de Vigotski é um sistema psicológico completo e complexo que entende que nós

seres humanos somos constituídos pela cultura. Vigotski, portanto, defendia uma Psicologia da concretude. Uma Psicologia que compreendesse as pessoas como um produto complexo de suas relações, história e condições materiais em que sua vida acontece.

Dessa forma, afirmamos que toda produção psíquica tem suas raízes nas relações sociais, ou seja, antes da vida psíquica poder existir como realidade intrapsicológica, ela se configura como realidade interpsicológica — situa-se no meio simbólico e na herança material e cultural concreta.

A partir dessa relação ativa com a realidade social, internalizamos os componentes mediadores presentes no meio, os quais podem ser potencializadores de saúde ou de adoecimento. 

Ou seja, entendemos que a nossa saúde psicológica não está separada da realidade social e, é claro, política. O que acontece no mundo também atravessa o que sentimos, o que pensamos e os sentidos que construímos.

E o resultado de uma eleição pode expressar a essência de uma sociedade.

No Brasil, vivemos em uma instância política de avanço do conservadorismo e de perda de direitos sociais e trabalhistas que foram historicamente conquistados. 

A pandemia de covid-19 que experienciamos escancarou ainda mais essa realidade — que buscava se esconder atrás de mitos como a meritocracia e a democracia racial brasileira. 

O imenso abismo existente entre ricos e pobres e a desigualdade social ficaram ainda mais expostos, como uma incômoda ferida aberta.

A ameaça de retorno aos dias tenebrosos da ditadura militar de 1964 é real e expõe como o bolsonarismo criou raízes profundas e continua disputando narrativas sobre direitos humanos, liberdade, democracia e sobre quem pode ou não existir plenamente.

Quando, no horizonte, não há garantias de proteção dos direitos que conquistamos, quando nossos representantes políticos defendem projetos que ameaçam a vida e a dignidade de tantas pessoas, o futuro pode se tornar fonte de medo, insegurança, angústia e desesperança. Hoje, mais do que nunca, esse é o sentimento.

Entretanto, uma Psicologia Histórico-Cultural comprometida com a realidade não pode ignorar isso.

Sabemos que as bases da Psicologia de Vigotski estão intimamente comprometidas com a transformação social e a destruição das iniquidades sociais. E devemos, com mais intensidade do que nunca, em nossa atuação, nos orientarmos por esse caminho construído.

Torna-se essencial referenciar aqui o Código de Ética Profissional da/o Psicóloga/o, instrumento capaz de delinear para a sociedade as responsabilidades e deveres do psicólogo, e que tem como um dos princípios fundamentais: “…promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuir para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Portanto, não há como a nossa classe trabalhista compactuar com discursos e projetos políticos de sociedade que incentivam, aberta e diretamente, a violência, a exclusão e a negligência para com grande parcela da população brasileira.

Nas palavras da grandiosa Conceição Evaristo… Eles combinaram de nos matar, e nós combinamos de não morrer.

Não morrer também é construir vínculos, ocupar espaços, defender direitos, enfrentar preconceitos e não permitir que a violência se torne parte natural do cotidiano.

É contribuir para que as pessoas compreendam as condições que produzem seu sofrimento, se fortaleçam coletivamente e encontrem possibilidades de transformação.

É fulcral unirmos forças e lutarmos contra essas ameaças explicitamente entoadas por todo o país. É essencial esperançar!

O pensador Paulo Freire fala exatamente sobre isso. Ele enuncia que existe uma diferença entre a palavra esperança e o verbo esperançar. Enquanto o primeiro, substantivo, remonta a um sentido de espera, o segundo, verbo, é um convite para a ação. Em suas palavras: 

“Esperançar é se levantar, 

esperançar é ir atrás,

esperançar é construir, 

esperançar é não desistir! 

Esperançar é levar adiante, 

esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”

Que possamos esperançar unidos em prol da defesa da nossa democracia, lutar por justiça social e pela superação de toda e qualquer desigualdade! Seguiremos resistindo.

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